Comportamentos menos democráticos
"As eleições autárquicas ficaram tragicamente marcadas pela morte de uma pessoa, na nossa região. É de lamentar que, trinta anos depois da instauração do regime democrático em que vivemos, não se aceitem as regras da democracia e se continue a assistir a fenómenos, mais ou menos violentos, no contexto dos processos eleitorais. Rara é a campanha em que não acontecem altercações entre os apoiantes de candidatos diferentes, que não se envereda pelo insulto ou pela injúria gratuita e sempre injustificada, chegando-se mesmo, felizmente em poucos casos, à agressão física, sendo a mais grave a que põe termo a uma vida, como aconteceu em Ermelo, concelho de Mondim de Basto. Este trágico incidente é o mais grave dos últimos anos. Mas todos os comportamentos que resvalam para a violência física ou, mesmo, verbal são de lamentar e não contribuem para uma sadia vivência da democracia, nem dignificam a região. Em democracia devem-se impor a força dos argumentos e não os argumentos da força. Para além destes episódios esporádicos, ainda que graves, de desentendimentos entre os apoiantes de diferentes candidaturas, há danos que perduram nas nossas comunidades muito para lá do acto eleitoral. Muitas das nossas aldeias ficam irremediavelmente marcadas pelo processo eleitoral. São diferenças políticas que degeneram em divisões profundas. São diferentes perspectivas, sobre o governo da aldeia ou do município, que se transformam em ódios figadais. São traços indeléveis que perduram durante muitos anos. Seria bom que as nossas populações se habituassem a discutir diferentes projectos de governação, sem que isso afectasse as relações pessoais e tornasse impossível a vida nas nossas aldeias. São inúmeros os pastores das pequenas comunidades transmontanas, que se lamentam pelos ventos de desunião e discórdia lançados por uma campanha eleitoral ou uma disputa mais renhida na candidatura a uma autarquia. Às vezes passam anos a edificar a união e a sadia convivência entre os paroquianos para em, apenas, quinze dias de campanha eleitoral tudo se esboroar. Uma outra pecha das nossas campanhas eleitorais é a compra de votos com o recurso a todos os meios, mesmo os mais condenáveis. Não é raro, os brindes oferecidos de porta em porta, deixarem de ser a esferográfica ou o avental para se transformarem no electrodoméstico, no bilhete para o espectáculo de um cantor famoso ou mesmo na bicicleta de passeio. Disseram-me que se chegam a oferecer materiais de construção, que foram comprados com o dinheiro de todos nós, para fazer obras em casas de particulares. Não quero acreditar que tal seja verdade. Às vezes também se acusam autarcas de lançar obras nas vésperas das eleições, como forma de convencer os indecisos. Também não quero acreditar que seja verdade. A serem verdade, são comportamentos lamentáveis, que devem ser condenados e erradicados da nossa democracia. Ou então, como o voto é secreto, cada um aceitar esses “novos brindes”, mas votar em consciência no candidato com melhor perfil para governar a cidade, vila ou aldeia. Como se diz na expressão popular: “Comer o isco e …”. Assim, talvez os políticos aprendam a fazer política de outra forma mais séria."
Calado Rodrigues - Editorial, in Mensageiro Notícias