sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Respigamos...com a devida vénia!


A PAISAGEM E AS PESSOAS
No Mensageiro de Bragança. Texto lindo...a não perder

"há 50 anos…

Pelo Distrito

ZEDES. Que larga, dura, mas
deslumbrada ascenção se projecta,
desde as funduras da estação
ferroviária de Codeçais até
Zedes, lá no alto, assente como
diadema sobre uma imponente
cabeça de montanhas. Subimos,
trepamos. Adiante, atrás,
aos lados, outeiros e picos recamados
de rochas bojudas e
pinheiros verdes saltam-nos
diante dos olhos, num filme de
encanto, a cada passo renovado.
A lenta escalada leva horas
sem fim. Mas nem damos pelo
tempo, enfeitiçados pelos meandros
desta paisagem tão personalizada
das terras da Carrazeda,
em que sombras dum
passado milenar podem bem
dormir, nos petroglifos escondidos
sob o manto de líquenes
duma fraga ou num montão de
lages desabadas a esmo.
Olhamos avidamente todos
as dobras do horizonte, curto,
fechado. Se nos voltamos,
o Tuela, ao fundo, manda-nos
uma aberta. Mas logo o bojo
escuro de outra montanha corre
a cortina parda de fragaredos
abissais. E a minha alma monolítica
abre as asas e canta.
Como este chão responde à minha
voz! Melhor que os homens
incapazes da solidez granítica
da verdade nua.
De repente, como se um vento
criador varresse a névoa tenaz
que nos cega, o panorama alarga-
se, a perder de vista. Chegámos
ao alto. Lá diante, frente a
nós, Zedes, branca e repousada,
chama-nos, com um sorriso de
veigas verdes e prados.
Cristo já passou por aqui. E,
onde pôs os divinos pés, abriuse
uma estrada para a vila,
outra para Areias e um rompimento
até aos Pereiros. Água
canalizada, escola nova em vias
de acabamento, rua principal
muito bem calcetada.
Mas esta boa gente não se cansa
de pedir que o Senhor volte.
Para ver se a água fica bem distribuída
(pois o grande tanque
a meio da povoação não basta),
se as outras ruas também recebem
a bênção do calcetamento,
se nasce um posto público (já
que o único telefone existente,
por ser particular, não os pode
servir devidamente) e se a electrificação
vem finalmente, para
que duas linhas de alta tensão,
que lhes passam por cima dos
telhados, deixem de formar apenas
uma negaça.
Então, esta linda aldeia de 90
fogos tornar-se-á um jardim. Até
se me não dava de fazer lá umas
curas de altitude, aspirando a
sua paz remansada, decifrando
a arqueologia dos seus rochedos,
dialogando com a formosa anta
da “cova da moura”, ouvindo a
sua gente, daimosa e hospitaleira
como poucas.
SORTES
25-10-1959— Visita Pastoral.
—Há 19 anos que esta pequena
mas linda aldeia não recebia a
visita do seu querido Pastor. É
aliás ao Senhor Dom Abílio que
devemos a honra e a predilecção
de duas visitas pastorais, ao
longo dos vinte anos de governo
da nossa diocese. A última
acaba de se efectuar no passado
dia 15.
Desde o dia 10, foi cuidadosamente
preparada com pregações
adequadas, a que, não obstante
tratar-se da época de mais aperto
nos trabalhos do campo, acorreu
sempre a povoação em peso
e até muita gente de Lanção e
Viduedo. Ensaiaram-se também
vários cânticos apropriados e as
crianças foram cuidadosamente
ensinadas pelas catequistas e
principalmente pelo Rev. Pároco,
— P. António Gonçalves.
Apesar de o dia se apresentar
chuvoso (pelo que o Senhor
Bispo teve de fazer a viagem de
jipe), ninguém faltou à recepção.
As ruas tinham sido muito varridas
e engalanadas. A Igreja
apresentava-se primorosamente
asseada. Uma criança saudou
o Senhor Dom Abílio, em nome
da Freguesia. Entre os acordes
do hino do Prelado, fez-se o caminho
da igreja. Lá, com a presença
de numerosos sacerdotes
(que tinham sido incansáveis em
confessar todas as pessoas), iniciou-
se, pouco depois, celebrada
a Missa de Comunhão Geral, a
administração do Sacramento
da Confirmação, que receberam
muitas crianças e adultos. Grande
dia para a nossa terra.
(E.)" In MB n.º 702,de 13.11.1950