Pelo Nordeste Transmontano
"Bragança // Universo de Cutileiro no Centro de Arte Contemporânea
Por: Carla A. Gonçalves / Secção: O Olhar /in Mensageiro Notícias
"Bragança // Universo de Cutileiro no Centro de Arte Contemporânea
Por: Carla A. Gonçalves / Secção: O Olhar /in Mensageiro Notícias
João Cutileiro e Jorge Costa, o comissário da exposição, sobre detalhes a ter em conta As esculturas, desenhos e fotografias de João Cutileiro substituem todo o universo artístico de Paula Rego num processo cheio de pormenores e de elementos que, como num espectáculo, se articulam para que nada falhe quando o público ali entrar
Os quadros de Paula Rego já foram embalados e carregados no camião, prontos a seguir viagem até ao Centro de Arte Manuel de Brito, em Lisboa. Enquanto isso, o pessoal do Centro de Arte Contemporânea vai descarregando as obras de João Cutileiro. As placas avisam os visitantes que está a decorrer a montagem de uma nova exposição, mas o Centro de Arte não pára nem fecha portas. As peças são alinhadas junto aos locais onde vão permanecer durante cerca de três meses. Tudo foi desenhado previamente como na montagem de um espectáculo. No final ficará patente não só uma exposição mas uma história, a história da vida artística de João Cutileiro ou a história que outros contam sobre a sua vida artística. Com apenas um ano de existência, o Centro de Arte Contemporânea tem já capacidade para assumir toda esta dinâmica sem falhas, inspirado em Serralves, a Fundação que inicialmente “tutelou”, por assim dizer, este equipamento. O artista é contactado e, caso aceite o desafio, há o importante trabalho, exclusivo do Comissariado ou em diálogo com o artista, de escolher que obras representar na exposição. No caso de João Cutileiro, o Comissariado, representado por José Alberto e Jorge Costa, desenvolveu todo um trabalho em parceria fazendo apenas questão de trazer à exposição a fotografia e o desenho, duas das vertentes menos divulgadas da obra de Cutileiro. Depois de uma viagem de quase 500 quilómetros, de Évora a Bragança, o artista confessou-se surpreendido com o espaço cultural. Desenhado por Souto Moura, distinguido a nível arquitectónico internacionalmente, e com o nome de uma sua colega artista, Graça Morais, o espaço superou todas as expectativas de um dos mais conceituados escultores portugueses – João Cutileiro. “É muito mais respirador e muito maior do que eu esperava, vim encontrar aqui condições de exposição quase superiores às da Gulbenkian”, referiu.
Como nasce uma exposição
Mas antes das peças subirem aos seus lugares, há muito trabalho a fazer. Há paredes a repintar, buracos a tapar, textos a imprimir para colar nas paredes, é preciso também tratar da iluminação, dos convites, do catálogo, e de todo um conjunto de pormenores que passam ao lado do visitante. Depois é necessário colocar cada uma das obras no seu espaço, num total de trinta fotografias, dezena e meia de desenhos, 14 placas de diorito negro e 11 esculturas, quatro delas com dois metros e meio. Peça a peça, os técnicos montam, logo à entrada, dois guerreiros de mármore como se de um puzzle se tratasse. Cutileiro numerou cada uma das peças para facilitar a sua montagem mas não arreda pé e faz questão de acompanhar cada passo deste processo. “Tento acompanhar porque é muito importante apesar de eu saber que no dia em que me for embora as peças continuam. Mas gosto muito de ouvir a opinião dos outros, tenho muita curiosidade em ver o que é que os outros escolhem, como dispõem as peças, embora de vez em quando fique muito arrepiado”, revelou o artista. É que embora aprecie ver o que os outros pensam de si e a forma como dispõem o seu trabalho, o artista tem alguns receios. “O empacotamento foi feito por mim, por um dos comissários da exposição e pelo gráfico do catálogo, em Évora”, contou. “Fiz questão de ser eu a embalar porque são peças frágeis e, por vezes, levo mais tempo a coordenar o pessoal de empresas... Há fragilidades e fragilidades, a fragilidade do vidro não é idêntica à do mármore”. É que, conforme Jorge Costa notou, as obras não podem ser movimentadas de qualquer forma e há “todo um processo minucioso de pormenores que não podem ser descurados”. Ainda assim, João Cutileiro não quis interferir na escolha das obras e deu apenas um conselho final: “não vale a pena misturar muitos elementos. Senão acontece como na gastronomia portuguesa, peca por excesso de sabores”.
No universo de João Cutileiro
Em apenas três dias, quase em contra-relógio, a equipa do Centro de Arte Contemporânea tratou de colocar cada uma das obras no seu lugar e de colar os textos identificativos. Os convites foram enviados e, no dia 24 de Outubro, às 17h30, tudo se encontrava impecavelmente arrumado e no seu lugar, como se ali estivessem estado sempre. A primeira sala é inteiramente dedicada à fotografia, uma das facetas menos conhecidas e menos divulgadas da obra de Cutileiro. São cerca de trinta peças, a preto e branco, de grandes figuras das artes e letras. Vieram directamente das paredes de sua casa e são o “registo espontâneo de uma geração onde sobressaem os retratos de amigos e familiares”. Ali estão Maria do Céu Guerra, o pintor Vieira da Silva ou a escritora Doris Lessin, prémio Nobel da Literatura. A primeira vez que foram expostos foi na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, em 1961. Daí até aos dias de hoje saíram apenas umas quatro vezes. Mas os comissários responsáveis quiseram destacar também o fotógrafo João Cutileiro, como explicou Jorge Costa. "A fotografia sempre acompanhou o trabalho dele, desde cedo. Aliás, ele sempre procurou formas que acelerassem o processo criativo, mesmo na escultura, e a fotografia permite-lhe isso mesmo". Cutileiro revela que, de facto, não foi a primeira vez que escolheram fotografias, mas adianta que “é raro”. No piso superior as esculturas ocupam o espaço central enquanto que a figura feminina ocupa as paredes, quer nos quadros de diorito negro, quer nos desenhos a tinta da china. Inspirado nas Vénus de Boticelli ou nas Majas de Goya, Cutileiro reinterpreta o corpo feminino a tinta da china e depois faz o mesmo exercício em grandes e pesadas placas de diorito negro polido, onde trabalha os traços lineares com as ferramentas que ele próprio introduziu na Escultura. Ao transpor para a pedra as mulheres projectadas no papel, Cutileiro faz o exercício de aproximar o Desenho da Escultura, área em que foi um verdadeiro revolucionário. João Cutileiro será sempre recordado pelo famoso D. Sebastião, uma estátua colocada em Lagos, mandada fazer na década de sessenta. O artista, rompendo com todas as normas, criou uma representação real de D. Sebastião a quem a feição de boneco articulado retira qualquer heroísmo. Mas esse realismo é a grande marca de Cutileiro. As arvores e os pássaros que ocupam o Centro de Arte não são mais do que isso, representam o que são em esculturas feitas através de vários blocos de granito e de pedras que diferem na sua textura e assimetrias. O mesmo se passa com os guerreiros colocados na entrada da exposição e feitos de paralelepípedos desiguais, placas perfuradas ou outras matérias residuais, reinventadas por Cutileiro. Até 10 de Janeiro de 2010 este “mundo” artístico de João Cutileiro está aberto a todo o público. Depois, um novo artista ou vários outros artistas virão povoar novamente o mesmo espaço, alimentando todo um público sedento de arte."