sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Os Ecos de Eco ou "a arte da discriminação"?

"Tons da terra
Durante os fim-de-semana, adoro
ler, ler muitos jornais e revistas,
tanto quanto tenho tempo disponível
possível para o fazer de forma
prazenteira, como quem se alimenta
de palavras. É que a alma precisa de
alimento. De palavras.
Das minhas leituras aquela que me fez
parar um pouco e reflectir foi a entrevista
que Umberto Eco deu em exclusivo ao
Der Spiegel, e que o jornal publicou no
dia 5.12.09.
Susanne Beyer e Lothar Gorris, os jornalistas
entrevistadores, a certa altura e
na continuação do questionamento das
listas (enumeração, ordenação, etc…),
perguntam a Eco:
- “Mas também disse que as listas podem
trazer ordem. Quer então dizer que
tanto a ordem como a anarquia se aplicam
neste caso? Isso tornaria perfeitas
para si a internet e as listas criadas pelo
motor de pesquisa Google.”
E Umberto Eco responde com uma ideia
interessante e importante para os nosso
dias, em que o Google, e não só, são
meios de investigação permanente e que
importa saber utilizar.
_”Sim, no caso do Google, ambos os
conceitos convergem. O Google cria uma
lista, mas, no momento em que olho para
a lista que o Google gerou, ela já mudou.
Essas listas podem ser perigosas - não
para os adultos como eu, que adquiriram
conhecimento de outro modo -, mas para
os jovens, para quem o Google é uma
tragédia. As escolas deveriam ensinar a
arte da discriminação.”
E Eco volta de novo a ser extraordinário ao
fazer uma sugestão à questão mais que pertinente
e oportuna que os dois entrevistadores
fazem ao autor do “O Pêndulo de Foucault”,
que, com total lucidez, lhes responde
como a que a sugerir uma nova Disciplina.·
-“Está a dizer que os professores deviam
ensinar aos estudantes a diferença entre
bom e mau? E, nesse caso, como o
fariam? - “A educação deveria regressar
às estratégias das oficinas da Renascença.
Aí, os mestres podiam não ser capazes
de explicar aos alunos por que razão uma
pintura era boa em termos teóricos, mas
faziam-no de maneiras mais práticas. Olha,
isto é o aspecto que o teu dedo pode ter
e este é aquele que deve ter. Olha, esta
é uma boa combinação de cores. A mesma
abordagem deveria ser utilizada nas
escolas quando se lida com a internet. O
professor deveria dizer: Escolham qualquer
assunto: a história da Alemanha ou a vida
das formigas. Pesquisem em 25 páginas
web diferentes, comparando-as, e tentem
descobrir qual tem informação importante
e pertinente. Se dez páginas disserem a
mesma coisa, pode ser sinal de que essa
informação está correcta. Mas isso também
pode acontecer porque alguns
sites se limitaram a copiar
os erros dos outros.”
Fiquei ainda a saber que Eco
tem uma biblioteca particular
de cerca de 50 mil livros
e que os seusinteresses mudam
constantemente, tal
como a sua biblioteca. E a
noção de Cultura que Eco tem nesta linha
leva-nos a pensar. Vejamos o que ele diz
ao Der Spiegel:
“ A propósito, se os nossos interesses
mudarem constantemente, a nossa biblioteca
dirá algo de diferente sobre nós.
Além disso, mesmo sem um catálogo,
vejo-me forçado a lembrar-me dos meus
livros. Tenho uma sala para literatura com
70 metros de comprimento. Percorro-a
várias vezes por dia e sinto-me bem quando
o faço. Cultura não é saber quando
morreu Napoleão. Cultura significa saber
como vou descobrir isso em dois minutos.
Claro que, hoje em dia, posso encontrar
esse tipo de informação na internet em
menos de um ai. Mas, como disse, com
a internet nunca se sabe.”
Mais palavras para quê? Eco diz muito.
E antes de terminar, quero aqui dar a minha
nota muito positiva às falas da professora
Bárbara Dias, quando diz que existe um
“desconhecimento geral das crianças
sobre a cultura e as tradições do meio
em que se inserem” e que “podia ser
colmatado se os professores incluíssem
nos conteúdos programáticos escolares
essa componente”. Bárbara Dias, professora
de Educação Visual, “fê-lo com os
seus alunos e tratou do tema numa tese
de mestrado de Animação e Produção Artística
defendida, na semana passada, na
Escola Superior de Educação do Instituto
Politécnico de Bragança (IPB)”.
A docente pegou no tema geral “Animação
das Festas de Inverno no concelho
de Bragança” para introduzir “Os caretos
na escola – o reavivar das tradições”.
Bárbara Dias, segundo este Jornal, constatou
que as crianças desconheciam as
tradições locais, embora fossem naturais
da região, sendo até que a maioria desconhecia
a existência do Museu Ibérico
da Máscara e do Traje, situado na zona
histórica da cidade.”
Uma entrevista a reler e ler, no MN, por
todos os que trabalham na área da educação,
dada a sua pertinência.
Preocupado com esta realidade e nesta
linha, apresentei há uns dois anos um
projecto aos responsáveis por uma Associação
de Municípios, que vinha, de certo
modo, ao encontro das falas pertinentes
de Bárbara Dias e Luís Canotilho, orientador
da tese de mestrado, que também
ao MN referiu, que “compete aos professores
introduzirem no currículo escolar as
tradições genuinamente portuguesas”
,porque “o currículo nacional do ensino
básico propõe a integração das crianças
e dos adultos na região através do
reconhecimento daquilo que são as suas
tradições e aquilo que é a sua verdadeira
cultura genuína”. Mas alguns autarcas
insensíveis silenciaram-se e o projecto
continua na gaveta.
O importante é que todos tomemos consciência
que em Trás-os-Montes muita coisa
há por fazer e muito por culpa de alguns
que não fazem nem deixam fazer, mas
esses, e é pena, são os que continuam
a ocupar lugares sem sensibilidade que
importa começar a responsabilizar."
João Sampaio, 18.12.09, in Mensageiro Notícias

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