quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Editorial do Mensageiro Notícias (4.2.2010)

"Rua da
República


Muitos evocaram as lições desoladoras
da primeira República, nomeadamente
em relação à Igreja.
Mas também há muitos traumas
clericais lembrados apenas de bens
e privilégios perdidos
A República desceu à rua. Ou
todas as crónicas do reino vão dar
à Rua da República. Já compreendemos
que não falta quem dela se
apodere para dizer tudo o que já
pensava. Já não me lembro bem dos
que mal se lembravam daquele 5
de Outubro de 1910 - como muitos,
hoje, do 25 de Abril têm uma
imagem ténue. Lembro-me dum
velhote que dizia não se tratar de
nenhum regime mas apenas de
uma forma de estarem contra a
monarquia, a Igreja e a tradição.
Havia manifestos, pasquins, comícios.
Factos houve, como as comemorações
da morte de Camões e o
ultimato inglês, que foram aquecendo
os ânimos para a estocada
final na monarquia. Que, também
se acrescenta, andava de péssima
saúde e deixou saudades a muito
poucos. São as turbulências da
história.
A República, um facto, muitas
leituras. Mas um acontecimento
que marcou a nossa história do
século XX e não nos é indiferente
cem anos depois. Dá-se agora uma
espécie de correria para cada corrente
de leitura chegar primeiro
à interpretação ortodoxa que defenderá
como única e definitiva.
Muitas vezes trabalhando a história
à sua maneira e encaixando-a
na ideologia já instalada. Assim,
não haverá interpretação dos factos,
mas o seu tratamento voltado
para uma direcção pré-definida.
Distorcida e estreita.
Do todo, algumas notas irão marcar
as comemorações com alguns
slogans que já estão, em trova, no
vento: a lídima república contra a
obscura monarquia; a revolta contra
o conformismo do irremediável; o
laicismo iluminado contra a Igreja
retrógrada; a liberdade contra todas
as opressões. E muitos ficarão
por aqui, esquecendo atrocidades
e roubos que em nome da liberdade
se fizeram, os erros políticos, de
palmatória que levaram o país a
cair benignamente nos braços do
28 de Maio.
Mas a história não se faz sem sobressaltos.
E importa por isso descobrir
as mudanças radicais que, a
bem ou a mal, se introduziram no
nosso país. Diríamos hoje simplesmente:
uma estrondosa mudança
cultural. Nos pós 25 de Abril muitos
evocaram as lições desoladoras da
primeira República, nomeadamente
em relação à Igreja. Mas também
há muitos traumas clericais lembrados
apenas de bens e privilégios
perdidos. Urge, por isso, uma grande
humildade e liberdade para ler
correctamente a história. E com
ela sempre aprender.
E actualizar uma lição para todos
nós, cidadãos, profissionais da política,
governantes e governados deste
decénio: o momento que vivemos,
nem monárquico nem republicano,
é de alguma ansiedade face a
muitos riscos que nos ameaçam
perante a Europa, o mundo e nós
próprios. O espectáculo do orçamento
de Estado, e da previsível
evolução da economia dão-nos a
imagem dos caminhos tortuosos que
temos a percorrer. Tão complexos
como os tempos que se seguiram à
implantação da República e ao 25
de Abril, com tantos escolhos na
área social, pedagógica, familiar,
institucional, religiosa, em clima
de insegurança, desemprego, com
números ínfimos de crescimento
económico, e a certeza triste duma
crise que - terá fim - mas deixará
pelo caminho muitas vítimas entre
as quais os próprios construtores
do futuro que são os jovens.
É bom celebrar a história. Desde
que se procure compreendê-la e
aprender as lições que nos deixa. Seria
muito bom celebrar a República
de forma a mobilizar-nos com mais
uma dura lição da história. "
António Rego,
Agência Ecclesia

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