domingo, 7 de fevereiro de 2010

PARA MEDITAR...

"Os grandes prazeres humanos: comida, sexo, e dar

por Nicholas Kristof, 21 de Janeiro de 2010, Jornal "I"
http://www.ionline.pt/

A generosidade é gratificante - e daí podemos deduzir que estamos programados para ser altruístas. Vários estudos confirmam que partilhar coisas com os outros traz felicidade.

Richard é branco, tem 36 anos e é um ambicioso comerciante da Florida. É saudável e um belo homem que vive sozinho numa casa com piscina e tem um historial de lindas mulheres. O trabalho dele é cheio de stresse, mas Richard passou o Natal no Taiti. Livre e despreocupado, tem tempo para se entregar a paixões como ler (neste momento está a acabar um livro intitulado "Half the Sky"), correr a maratona e escrever poesia. Nos últimos dias escreveu uma elegia acerca do tremor de terra no Haiti.

Lorna é negra, tem 64 anos e vive em Boston. Tem excesso de peso e não é bonita, mesmo depois de uma recente operação plástica ao nariz. Lorna faz diálise regularmente, o que não a impede de ter uma vida social activa nem de tomar conta dos netos. Auxiliar educativa na reforma, entende-se muito bem com o marido, de 67 anos, e é muito respeitada na igreja que frequenta, onde dirige a comissão musical e a campanha semestral de dádiva de sangue. Lorna acredita na dízima (dá 10% dos seus rendimentos a instituições de caridade ou à igreja) e nos últimos dias organizou uma acção da igreja para angariar 10 mil dólares para as vítimas do tremor de terra do Haiti.

Adaptei os exemplos acima, escolhidos entre os que Jonathan Haidt, professor de Psicologia da Universidade da Virgínia, desenvolve no seu fascinante "The Happiness Hypothesis" ["A Conquista da Felicidade", Sinais de Fogo]. O que ele pretende mostrar é que, embora a maioria de nós escolhesse trocar de lugar com Richard, Lorna é provavelmente mais feliz.

Os homens não são mais felizes que as mulheres e as pessoas que vivem em climas soalheiros não são mais felizes que as que vivem em climas mais frios. Os dados relativos à saúde são complexos, mas mesmo os problemas crónicos (como precisar de hemodiálise) podem ter um efeito surpreendentemente diminuto na felicidade a longo prazo, porque nos adaptamos a eles. As pessoas bonitas não são mais felizes que as feias, embora a cirurgia cosmética pareça fazer com que os pacientes se sintam mais animados. Os brancos são mais felizes que os negros, mas só muito ligeiramente. E os jovens são um pouco menos felizes que os mais velhos, ou pelo menos que as pessoas até aos 65 anos.

A Lorna tem algumas vantagens sobre o Richard. Está sujeita a menos stresse e é respeitada pelos seus pares, coisa que a faz sentir-se bem. A felicidade está associada ao voluntariado e ao acto de dar sangue, e as pessoas com fé tendem a ser mais felizes que as que a não a têm. Um casamento sólido está associado à felicidade, tal como a participação em redes sociais. E um estudo verificou que quem está centrado na conquista de riqueza ou na promoção na carreira é muitas vezes menos feliz que quem se preocupa com as boas obras, a religião ou a espiritualidade, os amigos e a família.

"Os seres humanos são, em alguns aspectos, como as abelhas", diz Haidt. "A nossa evolução encaminhou-nos para uma vida em grupos sociais intensos, e damo-nos menos bem quando ficamos libertos das colmeias."

É evidente que a felicidade é um conceito complexo e difícil de medir; John Stuart Mill teve uma saída muito boa quando disse: "É melhor ser um homem insatisfeito que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates descontente que um tonto contente."

No entanto, em qualquer caso, a nobreza pode conduzir à felicidade. Haidt faz notar que uma das coisas que podem fazer uma diferença duradoura no nosso contentamento pessoal é trabalhar com outras pessoas numa causa maior que nós próprios.

Vejo isto constantemente. Entrevisto pessoas com vidas ocupadas, que se forçaram a si próprias a abraçar uma boa causa porque (ai, ai!) era uma questão de dever. Depois descobriram que esse "sacrifício" se tornou uma enorme fonte de auto-realização e de satisfação.

Assim, numa altura de tão grandes necessidades, a começar no Haiti e a acabar nas nossas próprias cidades, eis uma oportunidade de simbiose: tantas pessoas aflitas por aí e tantos benefícios para nós se as ajudarmos. Não esqueçamos que, embora as instituições de caridade tenham um palmarés heterogéneo no que toca a ajudar os outros, têm também um historial quase perfeito no que toca a ajudarmo-nos a nós próprios. Ajudar os outros pode ser um prazer tão fundamental como o sexo ou como comer.

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