6 Junho 2010
Os Vilões e os Tinhosos
"Começo com este poema de Luís Pacheco
“ Como cães de festim, vis e rasteiros,
de cauda pertinaz batendo a mosca,
atordoam políticos rafeiros
a sã testa do povo, embora tosca.”
Foi um fartar vilanagem. E tudo se consentiu a pretexto da santa ignorância, da tradicional submissão ao poder, da cegueira endémica dos medrosos, da ancestral subjugação ao jugo.
Ainda constou recentemente que iria ser estimada a culpa dos que mais contribuíram para o “longa noite”. Houve quem garantisse que iria ser requerida umas sindicâncias às contas públicas. Mas já ninguém acredita que haja coragem para tanto. Afinal a culpa é de todos.
Como foi possível consentir-se tanta vilanagem!? Tanta pantominice!? Tanto desaforo!? Eu fui uma das testemunhas. Desempenhei mal o papel da criança que diz: “ o rei vai nu”. Ninguém acreditou. È por isso que não estou em paz comigo. Sou dos que não se conformam com a ideia de esquecer e absolver os principais culpados da “herança” que agora temos de suportar.
A jactância e a sobranceria atingiam tal desaforo que em muitas ocasiões, em vez de chorar, me apetecia rir às gargalhadas Quem não recorda o caricato do pagamento do aluguer de andores para fazer procissões!? Quem não se recorda do modo como se procedia aos concursos de admissão de pessoal!? Todos sabiam com antecedência a quem caberia a sorte. Uma vez até entrou um engenheiro que ainda não o era. Outra vez ainda tentaram concorrer para cargos da sua competência, deficientes físicos, sem sucesso. E aquela do funcionário, que era ao mesmo tempo decisor dos veículos a reparar e, cá fora, punha a sua empresa o fazer o serviço!? Uma vez dei-me conta que a proposta de reformulação do organigrama dos serviços da Câmara Municipal copiava a da Câmara Municipal de Beja. O esquema foi aprovado e temos assim um organigrama com a mesma hierarquia e funcionários de uma Câmara de cidade. Quem não se recorda das reformas compulsivas para se arranjar vagas para outros entrarem!?
A ronha, a matreirice a prepotência campearam, com a tolerância da grande maioria. È justo recordar aqui alguns, poucos, que tiveram a coragem de lutar contra o sistema e por isso foram renegados, sofreram a marginalização social e física. Eram os Tinhosos, aqueles com quem não convinha a associação, sob pena de conotação com estes. Eram os vermelhos, os comunistas, os lunáticos. Tive o grato prazer de conhecer e me tornar amigo de alguns. Assim pude conhecer a pureza dos seus ideais, e a nobreza dos seus princípios. Pude também testemunhar a sua condição de renegados quando os vi perder concursos, serem preteridos na prestação de trabalho, serem humilhados e menosprezados na sua disponibilidade para contribuir para a causa pública. Neste meu gesto de reconhecimento pessoal e para que fique o registo, recordo o nome de alguns da minha lembrança, estando muitos ainda vivos. O Senhor Adolfo do Amêdo a quem inclusive morreu um filho militar, na Guerra do Ultramar; O Senhor Pinheiro dos Pereiros; O Senhor Fernando Baltazar; O Senhor Victor Lopes; O Velho Senhor Rui Menezes Pimentel e posteriormente o filho; O Sr. Carlos Manuel Fernandes e antes o pai; O Doutor Orlando de Carvalho; Os Saudosos Alexandrino Rainha e Doutor Fernando Pereira, etc.
Num momento da nossa história em que a deriva da gestão pública nos aproxima agora da derrocada económica e financeira, que ao menos nos fique na recordação a luta inglória de alguns isolado, que acreditaram e lutaram por uma sociedade mais igual, menos discrepante e mais solidária."
Postado por Helder Carvalho em 18:05 9 comentários
Nota: Tinhosos há muitos e alguns até se pavoneiam por aqui e vilões não faltam...e muitos que a nivel local, aqui e no país, têm culpas gostam de retorquir de santinhos...